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Última mensagem para a Profa. Isabel Auler

03/05/2017
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Isabel Auler assumiu reitoria da UFT em julho de 2016
(Foto: UFT/Divulgação)

Ontem, dia do trabalho, fomos surpreendidos com a notícia do falecimento da professora Isabel Auler Pereira, reitora da UFT eleita em 2016. Para uma pessoa que não desistiu da ação nem quando deveria, mesmo quando suas forças sucumbiam, a data parece-nos emblemática a nos lembrar de quem insistiu até o fim na luta, crendo na força do seu trabalho.


Para algumas universidades, é bem possível que uma pessoa que ocupe um cargo como esse seja uma distante personalidade, inacessível pelos trâmites burocráticos ou pela autoridade do cargo e atividades de que se ocupa. Pela história dos que vão construindo a UFT, porém, essa distância e indiferença jamais se deu. Não me lembro concretamente quando a conheci, mas nosso diálogo se firmou quando o colegiado do curso de Letras construía o seu projeto pedagógico, sendo momento também em que se construíam os projetos dos cursos da primeira fase do REUNI. Isabel era então pró-reitora de graduação e acompanhava literalmente todos os projetos que estavam sendo elaborados, por todos os cursos de graduação, dos sete campi da UFT, inclusive puxando-nos as orelhas diante de algum equívoco gramatical nos textos.


Muitas vezes marchamos para Palmas num transporte que sempre ficava pelo caminho da ida ou da volta, com colegas que nos alegravam o percurso pela amizade, pelas piadas e companheirismo, aproveitando esses momentos em que se definiam nossas posturas políticas e pedagógicas para os cursos novos e velhos. Uma vez na reitoria, nem sempre comungávamos das mesmas perspectivas, mas sempre fomos ouvidos, pois sempre houve diálogo e possibilidade de negociação. Participando da redação desses projetos e com um filho pequeno que só sossegava ao dormir, muitas vezes concluímos as atividades pendentes de madrugada, enviando versões das matrizes e textos dos projetos por e-mail, para receber logo após suas respostas denunciando que também trabalhava noite adentro, ainda que os filhos fossem já crescidos. Era assim a professora Isabel, disponível para o trabalho e o diálogo a todo momento, acessível imediatamente para ajudar a resolver conosco as muitas demandas da graduação e da pós.


Numa de suas últimas vindas ao nosso campus, saímos para jantar e falamos de um projeto de e-book que denominamos Poesia em Tempos de Golpe. Isabel de pronto já havia aceito e comunicado ter ensaiado a sua contribuição. Uma pena que não tenhamos levado a ideia adiante, para então ter os versos combativos de nossa reitora para a memória de sua capacidade de resistência política e poética.


Foram certamente esses tempos difíceis de destruição da universidade pública, de decisões entre demissões e manutenção de bolsas de estudo, de negociações pesadas junto ao MEC e sob as ameaças crescentes à democracia que contribuíram para levar as últimas forças de quem tanto já se esforçara pela consolidação da universidade pública no Tocantins.


Como professora do Profletras, deixa uma orientanda ainda por defender sua dissertação, porque não pensava em desistir da tarefa, mesmo assumindo dificuldades de concentração nas leituras e pedindo um pouco mais de tempo. Isabel não queria partir tão cedo e lutou bravamente para estender seu tempo conosco. Desde o primeiro momento, quando comunicamos a aprovação do segundo programa em Letras no campus, contamos com seu apoio, vindo em seguida com alegria ministrar aulas e agradecendo-nos então a oportunidade de lecionar uma disciplina de sua formação específica. Era assim a pessoa que tantas vezes foi nossa representante junto aos secretários de educação do Estado lutando para garantir o apoio aos professores em formação no mestrado profissional.   


Isabel nos representava como mulher, como intelectual, como liderança. Para muitos, parece haver uma ordem histórica impessoal que faz tudo acontecer, a despeito dos sujeitos. Por ter tido a honra de conviver com pessoas como Isabel penso que há pessoas que fazem ser a história. E sua história de vida vai então deixando sua marca na UFT, nas políticas implementadas, no que edificou como sonho e como compromisso, como ação e prenúncio. Segue também no nosso coração, no permanente afeto que não cessa com sua partida.


Como acredito que há outros planos de existência, penso que em breve velará por nossos sonhos e nosso trabalho, lutando em outras esferas pelo destino da nossa democracia e da UFT.


Até breve, professora Isabel. 


Luiza Silva

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